quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A Colher do Cabo Amarelo

Acho que já referi isto....Quando viemos para este bairro a minha filha era menina jovenzinha, linda, simpática, de sorriso deslumbrantemente constante. E virou famosa. Pelos atributos de personalidade mas também porque era assídua frequentadora da "rua das lojas"- das esplanadas, da padaria, da mercearia, da farmácia...-. Dei-me conta da sua aura quando um dia me vi sem dinheiro para pagar legumes e a dona da frutaria escreveu, no livro de contas : "mãe da Mariana a dever 'xxx' escudos". 
Ao tempo vivia-se, ainda, o rescaldo da telenovela "Sassaricando" na qual uma Cláudia Raia exorbitante -tanto que parecia saltar da televisão para o nosso colo - era  filha de uma  salerosa imigrante espanhola. A Madrecita .... Talvez por isso, o Filipe, um dos funcionários da pastelaria onde muitas vezes íamos, as duas, tomar café, me colou essa alcunha. Que ficou para sempre. Hoje mesmo, a meio da tarde,  quando por lá passei e me cruzei com um empregado - dos antigos - ouvi:  "Olá Madrecita! Como está?". 

Um dia, de passeio com a minha avó, a quem regularmente ia buscar para tomar ares fora do Lar onde tinha escolhido acabar os seus dias, quis dar-lhe lanche. Como estava bem velhinha deixei-a no carro, entrei na pastelaria, pedi um queque e um iogurte. Quando cheguei perto dela reparei que não tinha colher. Voltei. Pedi ao Filipe que me emprestasse uma,  de chá. Com um piscar de olhos cúmplice passou-ma para a mão. De metal, com um cabo de plástico amarelo.
Aquele lanche demorou muito tempo. O iogurte foi dado a pouco e pouco, o queque partido aos bocadinhos.  Quase como a um bebé. Era uma tarde de primavera tépida e luminosa. No regresso pediu-me que abrandasse ao chegar ao Alto de Caxias para olhar bem o estuário azul e brilhante do Tejo. Talvez a visão a levasse ao mar do seu Funchal. Não terá sido a última vez que passeámos juntas mas foi uma das que recordo. Talvez pela colher.

É que a trouxe  para casa e a meti na máquina. A fiel Paula arrumou-a  na gaveta dos talheres num escaninho onde vão parar utensílios desemparelhados e só muito tempo depois, já a Avó tinha morrido e o Filipe abalado para um outro café, me veio parar à mão, talvez para dar iogurte a um novo neto.  Devia tê-la devolvido à procedência. Mas  o facto de ter voltado a sentir-me neta quando lhe peguei fez com que decidisse mantê-la. É uma espécie de roubo, eu sei. Que seja. A Avó volta quando a encontro com aquele cabo amarelo. 
Foi o que aconteceu hoje:  calhou-me pegá-la quando quis medir maisena para engrossar um molho. 
Voltei a ser neta....


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Ineficiência Geracional

Estive dois meses, ou mais,  sem usar este computador velho, grande e solene que eu adoro. Gosto mesmo. Porque ronrona e me faz companhia. Ou talvez porque está colocado a um canto sossegado da casa. Ou porque perto dele se encontra todo o material necessário para definir um escritório meu, tão meu que todos pedem licença para aqui se sentarem.
Quando retomei a sua utilização, houve um problema com o som. Um pequeno altifalante comprado antes do verão e que acompanhou o computador ao longo do seu sono estival, revelara-se mudo. Fiz todas as tentativas e utilizei todas as entradas, ali na traseira da torre, para o pôr a funcionar. Nada. Incapaz de perceber porquê mas sem muito insistir na sua resolução pois pouco tenho utilizado esta máquina para ouvir música. Por falta de tempo. E preguiça. Tem sido só para trabalhar. E no âmbito do trabalho incluo a correspondência diária por mail ou facebook onde raramente entro através do iPad que se arma em corrector espertinho, metediço e asneirento. 

Hoje o neto grande perguntou se podia . Eu disse que sim, claro. 

"Nada de visitar sítios esquisitos ou virulentos". 
"Tá bem, avó. Obrigado".

Percebi, num intervalo em que ele foi recuperar energias à cozinha e eu quis espreitar o windguru, que o mini altifalante se encontrava alumiado. E sonoro! 

"Então?? O altifalante não funcionava... Como é que se arranjou?"
"Liguei-o bem, avó..."
"Ah!"


sexta-feira, 19 de agosto de 2016


Neste meu verão periodicamente nebuloso tenho-me dedicado bastante às tarefas domésticas não só para matar o tempo mas também por falta de pachorra para arranjar alguém que se enfie cá em casa e a quem tenha de dar indicações e aturar conversas. Acho que agora começo a compreender a resistência a "meter estranhos em casa" que ao longo da minha vida fui vendo por parte de pessoas mais velhas. 

Já o sou. 
Pessoa mais velha.
Há dias até comentei, rindo, que para efeitos de "domesticidade" me imagino no papel das criadas que tive em casa dos meus pais. Duas irmãs, a Isilda e a Lurdes, beirãs, coradas, gorduchinhas e amantes dos magalas que cirandavam na cercania da rua Damião de Góis, vindos lá de cima dos quartéis. Ambas saíram de nossa casa para casarem. Aliás, uma casou e permaneceu connosco depois de casada, talvez porque o marido se ausentava em missão. E nem sei se estou a imaginar mas tenho uma idéia de ver alguns meninos púberes e imberbes, curiosos, espreitando desde uma pequena janela para dentro do quarto, na cave, onde ela teria os seus devaneios matrimoniais. Acho. Não sei que eu nunca espreitei. Na verdade, se estou a imaginar, haverá por aqui no facebook quem me possa confirmar.... 
Quando passo a ferro - e sim!! já dobro lençóis de elástico como uma facilidade que me orgulha!! - vejo a Lurdes, à frente de quem me sentava, na varanda onde ela engomava, ouvindo-a contar histórias da sua infância, em Seia, acho. Eram os lobos e as noites de lua, a neve e o rancho de irmãos, e os rebanhos, e os bruxedos.
Em 65, e a caminho de Mirandela, levámo-la - os pais, nós que ainda eramos cinco e ela...- no Mercedes, a passar uns dias com a família. Lá por perto da Serra da Estrela. Lembro-me de uma aldeia toda em pedra escura, de caminhos estreitos e mulheres que pareciam freiras. 
Nós pernoitámos no Caramulo. No Hotel que me pareceu de filme. 
Isto tudo veio à mão porque depois de ter deixado uma sopa de feijão ao lume, fui pôr roupa a secar- ao tal estilo, não de Lurdes, mas de "água fria na ribeira", alguidar à "ianca" e andar leve - e fiquei orgulhosa porque finalmente consigo organizar a corda bem à maneira de mulher portuguesa: camisolas de manga comprida, camisolas de meia manga, cuecas, meias aos pares e tudo tudo alinhado . Ah! E last but not the least: até agora só há duas meias desemparelhadas no cesto, em espera. Pouco para quem sistematicamente se espantava pelo mistério das peúgas desaparecidas...

MargaridaCF

segunda-feira, 6 de junho de 2016


Gosto de Gente

As relações humanas, sejam elas de que âmbito forem, são e serão sempre o móbil principal da minha vida. Sem este intercâmbio entre gentes nada faz sentido. Gosto de conhecer gente nova, de perto ou de longe, de raças diferentes e diferentes culturas, que me surpreendam e me ensinem. Felizmente, por caráter e porque tenho a sorte de trabalhar num sítio que o permite, esses encontros e novos conhecimentos são frequentes.

Na semana passada estive no Porto em trabalho, numa reunião que juntou a lusofonia. África esteve presente através de Angola, Moçambique, Cabo Verde, S. Tomé e Guiné, esteve Macau e, obviamente, esteve Portugal mais marcado pelo norte e pelo centro. Desta vez, faltou o Brasil por razões por demais conhecidas. Claro que estes contactos têm surpresas (ou não…) boas e más mas as primeiras, felizmente, vencem por larga maioria. Há gente que passa despercebida, há os bem dispostos e afáveis que nos deixam marcas, que não mais esquecemos e de quem chegamos mesmo a ficar amigos, e há os distantes, que se pensam “superiores” – felizmente muito poucos – que, para mal dos próprios, ou não deixam rasto ou, se o deixam, é cinzentão, feio, desagradável.

No meio de todos destacaram-se dois guineenses que me marcarão para a vida: gente licenciada, com elevados cargos nas regiões de onde são oriundos, com filhos a estudar em Coimbra, mas de uma simplicidade, de uma graça e de uma ternura quase infantil…digo quase infantil porque a ternura nos nossos países ditos evoluídos, vinda de homens adultos, é para a maioria sinal de fraqueza e, mais ainda, se essa ternura for transmitida a estranhos. Estes dois homens de quem já tinha ficado com muito boa impressão através dos contactos telefónicos, vindos de um país tão pobre, com uma situação política sistematicamente tão complicada, foram um bom exemplo de que a civilização e, especialmente, a riqueza, não tornam o Homem melhor.

O mais alto destes dois homens, com cerca de 1,90m de altura, muito negro, com um chapéu bordeaux, de aba pequena, que mais parecia a extensão do seu próprio corpo já que raramente o tirava, encantou-me quando, no meio da rua e qual miúdo traquina, nos disse alegremente que fazia anos e confirmou mostrando o passaporte. Cantámos os parabéns numa rua estreita do Porto, e voltámos a fazê-lo ao almoço enquanto os seus olhos brilhavam de satisfação. Voltou a encantar-me quando disse que na sua terra não existem madrastas nem padrastos. Existem somente PAIS e criança órfã ou abandonada que entre numa qualquer família, sem exceção,  passa a ser filho e a ser tratado como tal. Não entende, nem aceita, que na Europa isso nem sempre seja uma realidade. É impressão minha ou a boa índole deste homem, com esta afirmação, ficou muito transparente? Posso ter-me enganado mas acredito ter conhecido em muito pouco tempo um homem bom!

Antes da chegada a Lisboa, este homem repetiu vezes sem fim a sua tristeza por nos deixar, e despediu-se de nós quase de lágrimas nos olhos. O “tio”, como ele carinhosamente chamava ao conterrâneo que tinha metade do seu tamanho e que, consequentemente, o chamava de “sobrinho”, era de uma ternura diferente, mais brincalhona mas muito sentida naquele abraço apertado que nos deu quando se despediu. Ambos com um grande sentido de humor, deram-nos momentos de muita risota.


Bem hajam estes dois homens que deram uma enorme lição de humildade...a quem a quis aproveitar!

Anabela Simão

quarta-feira, 1 de junho de 2016

Outro Táxi...

...outra nuca, outros olhos.

Era manhã cedo. Não percebeu bem  a morada que lhe dei pelo telefone e pediu desculpa por isso. É que havia camionetas a andar.
Disse-lhe que ia a um colégio ver uma festa de um dos netos. Como netos? A senhora já tem netos?
E pegámos à conversa sobre

(ia dizer o sexo dos netos como se diz o sexo dos anjos mas calha mal e então)

sobre os géneros dos netos – cinco homens eu, três meninas ele -  e dos filhos e a idade deles e o tempo que passa tão depressa e como os consideramos tão novos ainda, e eles agora nem têm de ir à guerra, que a fez aos vinte anos em Angola.
No Cuito Cuanavale. Mesmo perto de Vila Nova da Armada onde esteve o meu marido que… não, não estava na Marinha… era Comando e andou por lá três meses.

“Pois eu era para estar quatro meses e fiquei vinte e oito. Era polícia. Numa povoação só de pretos. Chefiei um batalhão só deles. O Chefe antes de mim morreu com um tiro. Foi muito mau. Havia um  rio grande por onde passavam as lanchas dos fuzileiros. Eu via-as passar.
Depois fui para Luanda. Para o posto da polícia na Ilha. Aí é que foi… Tínhamos de tudo. Eles traziam-nos marisco do melhor, peixe fresco... Os motoristas das camionetas das cervejas entregavam-nos grades.  Aí é que foi bom. Sabe onde era a esquadra? E sabe onde eu almoçava todos os dias? No café Canas. Muito bom. Foi muito bom. Saí de lá em Dezembro de 74. Tenho saudades e não tenho”.



Durante o dia fui pensando se alguma vez vi um polícia na Ilha. Não me lembro nem de um . Acho que não há policias nos paraísos.

MargaridaCF

quinta-feira, 26 de maio de 2016

Morangos com Chantilly e Quilómetros Cúbicos de Gás.

Tive um neto-mais-velho, cá,  três dias inteiros. 
É a personificação daquelas definições habituais de adolescente: menino impulsivamente infantil versus homem crescido. Algumas vezes sem saber como lidar com o primeiro nem pôr rédeas na frieza do segundo. Homem  que sabe reagir em modo adulto,  metódico e para doer. Menino que lidera os irmãos em brincadeiras de polícias e bandidos ou de cavaleiros medievais a mando do senhor feudal. Que é ele. Esgrimam com espadas de madeira mas os rituais de violência são inspirados nas imagens dos noticiários televisivos. Muito crus.
Tivemos tempo para muita coisa: 
  • Dormir, dormir, dormir. E eu ouvia-o crescer. Eles crescem quando dormem . Tenho a certeza de que saiu daqui, hoje, com mais dois centímetros; 
  • Ver filmes do videoclube, séries da Fox  ou o Tonight Show de Jimmy Fallon;
  • Estudar, ele,  em livros espalhados pela mesa da casa de jantar. Sentar-me, eu, na sala,  em revisões de perguntas e respostas, um bocadinho a medo,  esperando a cada minuto  uma reacção de impaciência ... e incrédula perante a sua seriedade,  semi deitado no sofá grande,  de certeza cheio de vontade de me mandar às malvas, mas respondendo sabiamente embora escondendo bocejos....   E eu aprendi o ciclo do azoto e a nitrificação... 
  • Engolir pratazadas de lasanha, pizzas de motoqueiros e hamburgueres portugueses. E morangos com chantilly. 
  • Gastar quilómetros cúbicos de gás natural em banhos infindáveis começados com duche e terminados em imersão.
  • Debitar pequenas palestras  necessárias sobre a honradez e a urgência de aprender a pensar nas consequências da falha na honra. 
Separámo-nos à porta das Amoreiras. Ele seguiu de táxi para o dentista deixando-me na sempre vontade de ir pedir ao motorista uma identificação e recomendar cuidado na estrada. Mas contive-me.  Entrei para ver sapatos de casamento.  Saí estarrecida com os trezentos e tal euros que custavam os que eu mais gostei. Mas não comprei.  
Agora, ao fim da noite, dando volta às músicas, 'senti-o' ali no quarto ao lado. Quase o chamei para ouvir um lindo acorde. 
E encontrei na outra volta rápida ao Facebook um clip muito oportuno que recuperei integralmente no youtube. 

É para ver até ao fim:



Passeando no paredão de Oeiras


Aproveitando o dia de sol – envergonhado e ainda não muito seguro, mas de sol - fui passear para o paredão de Oeiras, enquanto fazia horas para um compromisso.
Talvez porque é pouco provável que repita aquele passeio tão cedo, os meus olhos pareciam ver a paisagem e as pessoas com que me cruzava de maneira diferente. Foi de tal maneira que até então nunca reparara que o forte de S. João das Lampas é bonito, apesar das suas paredes cheias de graffitis.
Numa zona de pedras, junto ao mar, sentada numa rocha, estava uma mulher, a cabeça toda branca, com o olhar perdido no céu e mar à sua frente. Completamente dobrado sobre ela, em equilíbrio instável, um homem, aparentando ser mais velho, passava a mão sobre o seu ombro como que querendo abraçá-la.
Aquela imagem era tão bonita que eu não conseguia afastar dela o meu olhar, e essa minha indiscrição só não foi descoberta porque eles estavam completamente desligados de tudo o que se passava à sua volta.
À medida que ia Lcaminhando e que me aproximava deles, ia tentando imaginar o significado do gesto dele. Ter-se-iam zangado e estaria a tentar fazer as pazes? Será que a queria proteger de alguma coisa? Seria um gesto de carinho num amor serôdio ou num amor de toda uma vida?
Quando já me encontrava muito perto, apercebi-me de que com aquele abraço ele não estava só a confortá-la e a acarinhá-la; parecia que, ao fazê-lo, buscava também algum apoio.
Lentamente, fui-me afastando, sempre com aquela imagem nos olhos e…
Eis que me cruzo com a imagem grotesca de um homem em andropausa avançada, vestindo uma T-Shirt, muito justa, com um desenho e uma frase, completamente desajustados para a sua idade, publicitando o seu físico, convencido, talvez, de que assim atrairia os olhares femininos.
Ao longo da minha caminhada fui-me cruzando com avós que vigiavam os netos a andar de bicicleta, triciclo, skate ou patins em linha, com jovens mães, sozinhas ou em grupos, que passeavam os seus bebés nos carrinhos e com aqueles a quem chamo “os taradinhos da forma física” – os que, só para estarem em “forma” para a época balnear que se aproxima, fazem “paredões” e  “paredões”, sempre a correr, sendo de tal forma evidente o excesso de esforço físico que, por vezes, os seus rostos denunciam algum sofrimento.
 
Luisa Mexia
 

terça-feira, 24 de maio de 2016

O Pastor alemão


 

Decorria o ano de 2012, ano em que foi realizada em Luanda a 1ª Feira de Empreendedorismo e Inovação, cuja organização estava a meu cargo.
Certo dia, a cerca de dois meses da data de abertura do evento, numa das inúmeras reuniões com a Direcção do Estádio dos Coqueiros, local de realização, fui apanhada de surpresa com a comunicação de que a feira teria que ser "encurtada" de quatro para três dias, porque o estádio tinha sido alugado a uma Igreja para uma missa campal.
Nem pensar!!! ...a feira tem todo um programa de workshops e palestras com entidades estrangeiras confirmadas, empresas expositoras e várias instituições públicas inscritas e que não senhor, fora de causa mudar fosse o que fosse. “Chamem o Pastor!!!! Ele anda por aí a vistoriar as bancadas! Temos aqui um problema para resolver!”, gritou o director do estádio, um simpático e bem apessoado senhor, que muito me ajudou a vencer alguns obstáculos de logística ao longo do parto difícil de um filho, só querido por mim e por alguns pais, com muitos torpedos e manifestas resistências.
Entrou o Pastor alemão (não era cão mas era um Pastor alemão), acompanhado da sua trupe de "apóstolos" ou "seguidores". Eram muitos, mais do que doze, pelo que me inclino para a segunda hipótese. O director explicou a situação, que a meia lua do estádio há muito tinha sido alugada por mim e que não podia de forma nenhuma haver alterações e que eu até nem me importava se a missa dele se realizasse ao mesmo tempo.
Teimosamente o Pastor alemão alegou vários inconvenientes, implicou inclusive com a altura dos stands que iriam tapar a visibilidade a algumas ovelhas do rebanho, avisando-me com o dedo no ar, de que os stands não podiam ter uma altura superior a 1,80.....Não faço feiras para anões, pelo menos por enquanto, Pastor.
Depois de uma conversa acesa de cerca de uma hora, perguntei-lhe a que horas seria a “actividade” dele. Das nove às treze, responde. Bem, então esta discussão não tem sentido, a minha feira funcionará a partir das catorze. Sem argumentos, separámo-nos, com a promessa de que até seria convidada para tomar parte do culto.
Claro que não fui convidada.

Na tarde do segundo dia das montagens da feira, já com  todos os stands em pé e muitos já decorados, apareceu-me o Pastor alemão, afogueado de calor e de raiva. “À senhorra é mentirrosa!!! Extas extrugturras têm dois metrros e meio de alturra, os meus fiéis da prgimeira fila não vao verr o meu altarr deste lado!!! Deus vai-lhe castigar, no sábado eu virr aqui e desmancharrr isto tudo!! “. Óptimo Pastor, diga-me a que horas vem, para eu chamar a TPA. Vai ser uma imagem de grande visibilidade um Pastor alemão enfurecido a destruir um evento dedicado à educação e qualificação da população empreendedora. Não sou mentirosa, sempre lhe disse que os stands teriam dois metros e meio de altura, mas olhe, como são quatro da tarde, eu nem sequer almocei e calculo que não tenha hóstias consigo, sugiro que vá falar com o director do estádio e resolvam o problema, como por exemplo, colocar uns calços de 40 cm no seu altar! Meia hora depois, quando regressei, estava mais calmo mas com uma lista de argumentos para  massacrar a minha já cansada cabeça. Exigiu espaço para a passagem da ambulância caso fosse necessário acudir a algum necessitado possuído pelo demónio. Espaço que não tinha mas arranjei, reorganizando a área para a montagem da tenda dos workshops. E ainda exigiu que tapasse os stands por tgrás porrque ficava muito feio para o lado dele!!!! Expliquei-lhe que faria o que fosse possível, mas não prometia nada porque seria uma coisa que iria onerar o meu orçamento, e certamente  os fiéis estariam muito mais interessados no sermão e nos cânticos do que na parte de trás dos meus stands.
Quando me perguntou qual o objectivo do meu evento, resisti heroicamente à tentação de lhe dizer que era uma feira erótica.

A missa realizou-se e eu tive, às 14 horas, uma avalanche de cerca de doze mil pessoas, não propriamente interessadas em empreender ou gerir fosse o que fosse, mas sim em arranjar umas mesas e umas cadeiras para comer o farnel, que cantar dá fome e as religiões não alimentam o estômago e sim a alma.
Foi necessária a intervenção da polícia para (im)pôr a ordem na multidão mas os trabalhos decorreram e a feira terminou com objectivos cumpridos e com sucesso.
Este foi um dos moinhos mais pequenos. O outro, o maior, um dia hei-de contar.
Eileen Salvação Barreto

sexta-feira, 20 de maio de 2016

A importância de um sorriso



A importância de um sorriso

Há sorrisos de vários tipos. O espontâneo, o falso, o da fotografia, o sexy, o congelado, o aberto, o fechado, dependendo do dono do sorriso e a quem é dirigido.

 Sem dúvida que o espontâneo, vindo de um adulto ou de uma criança, é o mais bonito e bem recebido. O falso, se for bem estudado, consegue enganar muita gente. O da fotografia, também engana, dependendo da habilidade e sensibilidade do fotógrafo e do estado de espírito do modelo. O sexy, toda a gente conhece e gosta, venha ele de onde vier. O congelado é o mais perigoso e difícil de interpretar, não abre nem fecha a boca, simplesmente não mexe, por uma questão de estética cirúrgica ou porque na realidade, foi cuidadosamente planeado - normalmente durante horas ao espelho - e cristalizou em gelo, sem nada lá dentro. Também conheço alguns, não pessoalmente, mas nas fotos das revistas cor-de-rosa que me põem no colo quando estou sentada no cabeleireiro ou, sem outra alternativa, nos consultórios médicos. Culpa minha, podia levar  um livro. Praticamente todos os sorrisos estampados nos rostos dos “modelos” são bonitos e aparentemente felizes, mas sinto-os congelados. Imagino quantos takes o fotógrafo terá que fazer, para conseguir atingir o objectivo que aumentará as vendas e alimentará o imaginário do público alvo deste tipo de publicações.

 O sorriso fechado e o sorriso aberto, têm muito a ver com a fisionomia de cada um, mas essencialmente com a vontade de sorrir, com o motivo, e a quem esse sorriso é dirigido.

É inacreditável a quantidade de pessoas que não sorri. Não que esteja à espera de ver toda a gente na rua de sorriso na cara, pareceriam idiotas, ou de entrar num restaurante e ser recebida por comensais a sorrir e a comer ao mesmo tempo…mas a ausência completa de um sorriso em transeuntes que se cruzam na rua e  não só, muitas vezes em situações que obrigam a um “desculpe”, “muito obrigada” ou “por favor”, leva-nos a pensar como a felicidade é importante na vida das pessoas. Ou, se felicidade for demais, fiquemo-nos pelo bem estar interior.

Após dois anos sem sorrir por razões que quase todos conhecem, aprendi que o verdadeiro sorriso vem de dentro de nós. Chamemos-lhe alma. Alma com dentes ou sem dentes. Lembro-me do sorriso tranquilo da Avó Emília.
Eileen Salvaçao Barreto

Não havia quem a parasse!



Sempre tive grande dificuldade em entender as pessoas que, nas salas de espera do centro de saúde/consultórios médicos, nas paragens de autocarros, nas bichas para qualquer serviço público, etc., sentem uma necessidade incontrolável de contar a sua vida ou de meter conversa com quem está ao seu lado. Na tentativa – a maior parte das vezes vã - de suster aquela catadupa de informação, não costumo responder, limitando-me a um ou outro aceno de cabeça, a um lacónico “pois…” ou a um sorriso de circunstância.
Quando, anteontem, fui à farmácia deparei-me com uma fila que chegava à porta. Enquanto esperava pacientemente pela minha vez, chegou uma senhora, de idade indefinida, que se colocou ao meu lado e começou a falar sozinha mas em voz alta:
Mas o que é que eu vim fazer aqui? O que é que eu vinha comprar? Concor não é, porque ainda tenho… o do colesterol também ainda tenho… o da circulação também não é. Mas afinal o que é que eu vinha comprar? - e ao mesmo tempo olhava para mim como se estivesse à espera que eu lhe respondesse.
Sem ter tempo de segurar as palavras na boca, perguntei-lhe:
- Não seria um medicamento para a memória?
A senhora, com um ar bem divertido, olhou para mim, sorriu e disse-me:
- Parece-me que estou a precisar… mas não é esse, porque esse ainda não tomo.
E foi o pretexto para iniciar uma grande conversa que eu, pacientemente, fui ouvindo…
Fiquei a saber a vida toda da “amiga Maria Fernanda” com quem ela naquela manhã estivera cerca de hora e meia ao telefone… que a Maria Fernanda está viúva, que vivia num lar das Forças Armadas, que deu uma queda, que teve de ser internada, que vai ter alta, que já não tem lugar no lar, que não sabe para onde há-de ir porque o filho foi viver com a família para a casa dela, que a Maria Fernanda tem setenta e tal anos e é mais velha do que ela dez, que a amiga já está um pouco confusa e que a põe a ela também confusa…  a tal ponto que hoje quando estava a falar com ela ao telefone, de repente começa a chorar e eu muito aflita:
– Ó Maria Fernanda, o que é tem?
 E ela:
- Deixei cair o telefone e agora não o encontro.
 E eu só lhe dizia: - Não se aflija, tenha calma, procure bem porque se o tinha na mão, ele há-de estar aí caído no chão!
E, olhando para mim, acrescenta com uma sonora gargalhada:
- Veja lá como estava a minha cabeça! Só depois de ter dito isto é que percebi que, se a Maria Fernanda estava a falar comigo ao telefone, o telefone não podia ter caído tinha, que estar na mão dela!
E dizendo isto, sempre a olhar para mim, recomeçou o monólogo inicial:
- Mas, afinal o que é que eu vinha comprar? Mas porque é que eu vim à farmácia? Bem, como não me lembro, vou-me embora!
Ainda atordoada por aquela vertiginosa verborreia, olhei à sua procura, mas já tinha desaparecido.
 
Luísa Mexia

Avó de ontem versus avós de hoje


Tal como a Anabela não sou avó, nem nunca o serei.
Não sei escrever como a Guida, a Jorginha, a Eileen, a Anabela e… estou certa que muitas mais.
Estranhei, portanto, que a Guida me desafiasse para escrever neste blog. Como não sei dizer-lhe que não, resolvi ir repescar algo escrito há já algum tempo. Aqui vai:



Quando, muito sonolenta, esperava no bar do hospital que fossem ter comigo, fui despertada do meu torpor pela voz de uma avó conversando ao telefone com a neta.
O que me acordou não foi tanto o que aquela avó dizia; foi mais o tom meigo, preocupado e cúmplice com que o fazia… tão diferente da maneira como a Avó Sílvia conversava connosco. Não, que a Avó não gostasse, não se preocupasse ou não fosse carinhosa connosco… só que não havia cumplicidade… havia um distanciamento, convenientemente alimentado e mantido pela geração mais velha - talvez com receio de que uma maior aproximação desse azo a faltas de respeito - que nós não ousávamos quebrar.
Pena que assim tenha sido!
São boas as recordações que guardo da Avó. No entanto, não posso deixar de pensar quão diferentes elas seriam, se a nossa relação tivesse sido tão próxima e cúmplice quanto o é a da minha Mãe e irmãs e a da maior parte das minha amigas com os seus netos?




Luísa Mexia

quarta-feira, 18 de maio de 2016


E como ele gostava de bolachas…

Fui criada numa família católica e, dentro dessa orientação, fiz quase tudo a que a mesma obrigava: fui  batizada, andei na catequese que achava uma seca e nunca me entusiasmou, fiz a primeira comunhão (não fiz a solene mas isso é outra história que agora não vem ao caso), ia à missa ao domingo com os meus pais, enfim…o habitual! Talvez por essa falta de entusiasmo mas, especialmente, porque o meu avô materno que acordava e adormecia de terço na mão e, literalmente, nos dava autênticas e insuportáveis injeções  de catolicismo, eu e os meus primos fugimos da igreja a sete pés logo que pudemos. No meu caso, teria 16 anos, um dia disse ao meu pai, arriscando uma cena, que não ia mais à missa. Mas, contrariamente ao que eu imaginei, com calma e inteligência, disse-me que era comigo. Confesso que havia uma missa onde continuei a ir: a missa dos jovens, à 3.ª feira, na igreja do Carmo em Luanda, onde estavam os meus amigos e onde as violas animavam os cânticos. Mas isto…era outra conversa.

Tudo isto para perceberem o que aí vem:

Casei com alguém para quem a igreja nada dizia e nunca demos ao nosso filho uma educação católica. As nossas opções têm sempre as suas consequências e temos que as assumir o que, neste caso, foi feito com um sorriso.

Convidados para um casamento, tinha o meu filho Alexandre uns 6 anos, chamaram-no para o altar junto a outras crianças. Portou-se bem, esteve sossegado e, entretanto, chegou a hora da comunhão que decorreu com normalidade. Entretanto, cerimónia acabada e o Alexandre veio para junto de nós. “então, filho, gostaste de estar ali?”, perguntei-lhe eu e ele, com um ar desolado e de quem tinha sido preterido, respondeu: “gostei mas não me deram bolachas”.

Já passaram 36 anos e não me lembro como conseguimos responder a esta questão. Tivemos que o fazer e devemos ter usado toda a criatividade imediata que foi possível, não mentindo  mas tentando explicar algo de muito difícil tendo em conta a situação.



Nota: que fique claro que o meu avô, Francisco de seu nome, malgrado aquela obsessão, adorava os netos


Anabela Simão


O filho do Loy



Nota: gostaria de iniciar, com a devida autorização da autora deste blog, alguns pequenos escritos que fui publicando no facebook, mas que julgo fazer algum sentido constarem aqui. Por um lado, são episódios passados em Angola, terra que diz muito a muitos de nós. Por outro, desta forma não se perderão.


Sintra, 18 de Maio de 2016

O filho do Loy

Final de tarde em casa, em frente ao computador numa azáfama de emails de preparação da minha estreia em Angola na área de feiras, ao som cansativo e desesperante do gerador dinossáurico que repousa há 40 anos à entrada da casa. De repente, silêncio...e a primeira sensação foi de alívio, teria finalmente chegado a electricidade? Imediatamente um pânico em crescendo tomou conta de mim, o gasóleo, tinha acabado o gasóleo e sem gasóleo, nem energia, não há gerador, não há luz, não há água e não há internet...empurrei a cadeira e, irritada, olhei pela janela ao lado da porta e tive a impressão de uma mancha cor de laranja através do vidro fosco da entrada da casa. Chamo: Loy!...nada. Levanto-me e saio para a rua, pergunto aos guardas do lado: viram o Loy? Sim, está ali, vou chamar. A alegria de ver o Loy, motorista e solução de praticamente todas as situações e contrariedades diárias, abriu-me um largo sorriso, não obstante o ser responsável por eu ter ficado com o trabalho a meio. Achando que não estava ninguém em casa, desligou o gerador.
A conversa que se seguiu apagou a irritação. Então dizia o Loy:

- Quando a minha filha ou filho nascer, vai ser tua chará.
-  Chará? Porque dizes isso?
-  Vai ter o mesmo nome, vai se chamar Eileen.
-  Então e se for um rapaz?
-  Também! Traz sorte.

 Mais uma vez, tive que controlar as emoções, que em Angola são muitas e chegam com muita força. Foi a primeira vez que me elogiaram o nome por trazer sorte. Deus queira que seja verdade e que a criança que nascerá para o mês que vem tenha mesmo muita sorte e que seja feliz!!!!
......Infelizmente o petiz, que se chamava Lino, não teve sorte. Faleceu ao fim de seis meses, vítima de malária…

 

terça-feira, 17 de maio de 2016

Bom dia e Toca a andar...


Avozes é um blogue criado para avós. Por circunstâncias da vida, não sou, nem nunca serei avó a não a ser dos netos das minhas amigas. E tenho tantos netos lindos…

Mas a Guida, querida como sempre, convidou-me a participar. Não porque escreva assim tão bem, mas porque me apetece e porque não recuso um convite da Guida, aqui vai um pequeno apontamento sobre alguém que, apesar de ter dois netos lindos, nem por isso se tornou doce e feliz como as avós que me rodeiam. Não sabe o que perde.


Bom dia e toca a andar…

A receção da instituição onde vou com frequência há já algum tempo tem, sentada a uma vulgar secretária, uma senhora de cabelos cinzentos e aspeto simples, que atende telefones e recebe quem ali entra. A primeira vez que passei aquela porta, e porque a boa educação assim o manda, disse “bom dia” e ao que ia, e tudo pareceu normal. Como a frequência das minhas visitas começou a ser mais assídua, ao “bom dia” passei a acrescentar “como está?”. Aí, a coisa complicou-se: as respostas passaram a ser, invariavelmente, queixas acompanhadas de expressão facial sofrida: “dói-me muito a cabeça”, “ai, os meus diabetes estão cada vez piores”, “estou farta da chuva”, “não aguento o frio”, “está tanto calor que não se pode”, “o meu marido, coitadinho…”, “as minhas férias…passaram-se” e passada fico eu com o rol interminável de desgraças que não o são. Ali, à minha frente, a negatividade em pessoa, algo incompatível com a minha boa saúde mental (sim, que isto pode ser pegadiço).

Perguntei a quem ali está há mais tempo o porquê de tanta lamúria…”sabes, o marido batia-lhe muito”. “batia-lhe??? Já não lhe bate?” “não, morreu há muitos anos. Agora vive com um senhor muito amigo dela” “Ahhh…’tou a perceber”. Mentira, não estou a perceber e muito menos tenho pachorra. Se um dia a D. X precisar de mim, estarei lá para ajudar, mas não vou deixar que me sugue energia com lamúrias sem conteúdo, só para chamar a atenção que não tem porque a afugenta e que, a continuar assim, dificilmente terá. É a chamada “pescadinha de rabo na boca”.


Agora, entro aquela porta e já com um pé no degrau que me leva ao andar de cima, arriscando a que me chamem de malvada sem coração, digo um “bom dia” rápido e sigo o meu caminho sem sequer virar a cabeça. Livra!!!


Anabela Simão

domingo, 15 de maio de 2016

amigosantigos / Para a Inês...

É um lugar-comum dizer-se que podemos interagir serenamente, sem hesitações nem barreiras, com os amigos antigos, mesmo que não os vejamos há anos.
Aqueles de infância e/ou adolescência. Os que correram connosco na praia e ganhavam – ou perdiam! - concursos de mergulhos… e - de vingança! - nos davam amonas aterradoras...  Ou que apareciam ao entardecer morno da nossa doce áfrica, e connosco se juntavam, em bando heterogéneo, nos portões de quem calhasse. De preferência com um gira-discos… Os que conheceram os nossos primeiros amores ou nos pediam conselhos sobre namorada(o)s mais caprichosa(o)s. Os que adivinharam  os nossos dramas e epifanias, ou dúvidas adjacentes, e nos ajudavam a desembrulhar emoções mais frágeis ou a pôr no sítio, como novos, os nossos corações despedaçados. (acho mesmo que a esperança, nem sempre consciente, de que a seguir a um muito mau momento vem uma fase boa, é resultado destes momentos primários.). 
Quando conseguimos saltar por cima de situações difíceis, temos sempre a ajuda dos amigos antigos. Mesmo sem eles presentes. Os amigos antigos ficam-nos para sempre nas alegrias e nas aflições, por vezes ainda mais que as mães e os irmãos ou os maridos/mulheres e filhos. Estão cá connosco a apoiar-nos ou a rirem-se desbragadamente de piadas patetas, mesmo que não estejam.
Estes meus amigos (e só não acrescento amigas para não parecer socialista a discursar na Assembleia …) podem estar casados, ter filhos e netos. Podem ter uma vida longe da minha na qual eu não estou inserida. Podem ter estado trinta anos sem que soubesse deles diariamente. Mas considero-os, muitas vezes, mais meus do que de qualquer membro das suas famílias. Há “partes” deles que me pertencem. Há, acima de qualquer pessoa que tenha aparecido nas suas vidas depois de mim, depois de todos os que foram seus amigos primários, uma prioridade específica e não partilhável. Como que um direito exclusivo. Não posso, eu sei, exercê-lo. Também, na verdade, não queria. Mas ele existe que eu sei. 

MargaridaCF

sábado, 14 de maio de 2016

Primavera em Sintra


Sintra, 14 de Maio de 2016

Gosto da Primavera. Em especial gosto de ver desabrochar a Primavera em Sintra porque é diferente. É verde. Verde de todas as cores. Claro, escuro, brilhante, límpido, opaco e, muitas vezes, verde transparente como o ar que ali se respira. Verde salpicado aqui e ali pelo amarelo de flores insultadas, porque chamadas de selvagens e azedas, sobreviventes à invasão da hera dominante,  abençoadas pelos raios de sol que espreitam através de aberturas esporádicas da mata de eucaliptos dançando  ao som da brisa e da água cantante das pequenas nascentes espalhadas pela serra. E o cheiro…o cheiro inebriante a terra e a vida. Um passeio por Sintra é uma viagem que não toca apenas os cinco sentidos, é uma verdadeira sessão de terapia da alma.

O meu jardim é um pouco mais colorido. O Sr. José Carlos, jardineiro, tem aquilo que se chama a “mão verde” - um dom que infelizmente não tenho - e conseguiu o impossível: fazer crescer flores nos canteiros, contra a vontade da ventania predominante nesta zona de Sintra. Até há um mês, todos os dias passava um olhar expectante a cada canto do jardim, até finalmente as ver despontar. Neste momento, crescem viçosa e vigorosamente, prometendo um verão mais bonito – se conseguirem resistir às regas de água com cloro que a minha neta Benedita lhes impõe, com a intenção óbvia de lhes dar de comer.

Já saída da primavera da vida há uns anos e  praticamente entrada no outono, sento-me ao fim da tarde na varanda da minha casa, mergulhada em êxtase a ouvir a passarada a despedir-se do dia, o coachar das rãs a celebrar a noite, o som dos bambús e da folhagem das árvores em conversa enamorada, com os olhos fixos no pôr-do-sol como se fosse o último, sentindo-me privilegiada por ser parte desta natureza em tons de verde.

Coisas de avó.

Eileen Salvação Barreto

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Trinta anos de Comunhão, a Salsa e os Vistos

Chovia tanto, eu não tinha guarda-chuva, nem dinheiro, precisava de um táxi e o multibanco era do outro lado da avenida que se havia transformado num afluente do Tejo.
Resguardada na galeria do prédio, vi um a entrar na rua, esbracejei de aflição, ele parou mesmo ali e eu mergulhei lá para dentro em brados de indignação encharcada e aterrorizada pela reacção do motorista quando lhe dissesse que tinha de parar lá adiante para eu ir levantar notas.
Foi simpático. Parou, esperou, eu reentrei ainda mais de pés gelados e encetámos uma conversa sobre a chuva e o tempo e o frio que afinal não foi muito este Inverno.
Pois, ele na verdade não abrira nem uma vez o aquecimento central nem acendera as lareiras que são três. E como agora vive sozinho, chega a casa, janta numa cozinhita ao lado da garagem e sobe logo para o quarto que é no primeiro andar. Como tem lá televisão, passam-se semanas que não entra na sala. E se o quarto é frio que o primeiro andar é alto...

-  É desabrigado, com vista para Bucelas, tá a ver a senhora?
- Ah... mas não tem familia, então, o senhor.
- Tenho uma filha e três netos, fui casado trinta anos mas a minha mulher resolveu sair de casa há dois  e divorciámo-nos. Sabe a senhora que isto de ser casado muito tempo, cansa. Estávamos para ali os dois, a irritar-nos um com o outro. Foi ela que quis e eu não a demovi mas também agora se quisesse voltar não a queria porque ela chegou a viver com outro homem depois de nos separarmos. Agora está sozinha mas já não a quero de volta.

Eu só lhe via a nuca e um par de olhos no retrovisor. Entretanto parámos numa rua estreita e íngreme por bloqueio de um camião.

- Mas o senhor vai compor a sua vida. Há muitas mulheres a quererem um companheiro.
- Pois. Os meus colegas também dizem que elas há muitas mas eu não vejo nada disso. Só as encontro lá fora.
- Lá fora? Noutro país?
- Sim. Na República Dominicana. Há muitos anos que vou lá e tenho duas, duas raparigas novas,  que me serviriam.
- Então ... tem de escolher uma e trazê-la...
-São os vistos, minha senhora. Muito difícil arranjar vistos.

E o trânsito fluiu, cheguei ao destino, paguei-lhe, ainda lhe recomendei que tivesse cuidado para não ter filhos com as dominicanas, ele agradeceu e arrancou...

Adoro conversas destas, intimas, rápidas,  reveladoras .
Adoro pessoas.
Às vezes, adoro taxistas. E deste ficaram-me a nuca e os olhos malandros e risonhos apesar de jantar, sempre, em solidão. Ou por causa disso, talvez.

MargaridaCF




quarta-feira, 11 de maio de 2016

Coisas da idade...

Fui ao médico dos olhos. Tinha-me receitado umas dioptrias excessivas que me faziam dores de cabeça e tornavam a leitura uma tortura.
Cheguei cedo. Puxei um cesto de papeis alto e sólido, estiquei as pernas e  lá pus os pés em posição de descanso vascular.
Ainda li três ou quatro páginas do "Nações e Nacionalismos" de Gellner mas os óculos velhos dão-me sono. Mudei para o suplemento da Visão. Saltei os habituais restaurantes e outras noticias "culturais"  e acomodei-me para as palavras cruzadas que me levam sempre a uma tia, praticante diária desse desporto. Morreu de cabeça fresca e sem ponta de demência.
Foram chegando os companheiros de espera. Restava o lugar à frente do meu, quase à distância das minhas pernas esticadas. Um senhor sentou-se em viés à conta do cesto,  o que me obrigou a chegá-lo todo para o lado. Reparei-lhe nos sapatos, mocassins, iguais aos dos "meninos do meu tempo". Ficou devidamente catalogado.
Mas também eu de viés, rapidamente me cansei da posição. Endireitei-me. E imediatamente ele apanhou o cesto e esticou as dele, pedindo-me licença como se aquilo fosse meu e justificando-se com um "sabe a idade e as pernas que doem". Queixei-me de lá estar há tanto tempo, chegámos à conclusão que iamos ao mesmo clínico, entusiasmei-me com a perspectiva de ter alguém com quem conversar e vai que desata a descrever-me o motivo da sua  presença, e tal, que há uns dias sinto uma impressão aqui, estas coisas da idade...
Felizmente o plim do meu número de senha saltou no placard e eu saltei feliz por poder escapar ilesa a um diálogo digno de idosos num centro de saúde.

MargaridaCF