Decorria o ano de 2012, ano em que foi realizada em Luanda a 1ª Feira de Empreendedorismo
e Inovação, cuja organização estava a meu cargo.
Certo dia, a cerca de dois
meses da data de abertura do evento, numa das inúmeras reuniões com a Direcção
do Estádio dos Coqueiros, local de realização, fui apanhada de surpresa com a
comunicação de que a feira teria que ser "encurtada" de quatro para três
dias, porque o estádio tinha sido alugado a uma Igreja para uma missa campal.
Nem pensar!!! ...a feira tem todo um programa de workshops e
palestras com entidades estrangeiras confirmadas, empresas expositoras e várias
instituições públicas inscritas e que não senhor, fora de causa mudar fosse o
que fosse. “Chamem o Pastor!!!! Ele anda por aí a vistoriar as bancadas! Temos
aqui um problema para resolver!”, gritou o director do estádio, um simpático e
bem apessoado senhor, que muito me ajudou a vencer alguns obstáculos de
logística ao longo do parto difícil de um filho, só querido por mim e por alguns
pais, com muitos torpedos e manifestas resistências.
Entrou o Pastor alemão (não era cão mas era um Pastor alemão),
acompanhado da sua trupe de "apóstolos" ou "seguidores". Eram
muitos, mais do que doze, pelo que me inclino para a segunda hipótese. O director
explicou a situação, que a meia lua do estádio há muito tinha sido alugada por
mim e que não podia de forma nenhuma haver alterações e que eu até nem me
importava se a missa dele se realizasse ao mesmo tempo.
Teimosamente o Pastor alemão alegou vários inconvenientes, implicou
inclusive com a altura dos stands que iriam tapar a visibilidade a algumas
ovelhas do rebanho, avisando-me com o dedo no ar, de que os stands não podiam
ter uma altura superior a 1,80.....Não faço feiras para anões, pelo menos por
enquanto, Pastor.
Depois de uma conversa acesa de cerca de uma hora, perguntei-lhe
a que horas seria a “actividade” dele. Das nove às treze, responde. Bem, então
esta discussão não tem sentido, a minha feira funcionará a partir das catorze.
Sem argumentos, separámo-nos, com a promessa de que até seria convidada para
tomar parte do culto.
Claro que não fui convidada.
Na tarde do segundo dia das montagens da feira, já com todos os
stands em pé e muitos já decorados, apareceu-me o Pastor alemão, afogueado de calor e de raiva. “À
senhorra é mentirrosa!!! Extas extrugturras têm dois metrros e meio de alturra,
os meus fiéis da prgimeira fila não vao verr o meu altarr deste lado!!! Deus
vai-lhe castigar, no sábado eu virr aqui e desmancharrr isto tudo!! “. Óptimo
Pastor, diga-me a que horas vem, para eu chamar a TPA. Vai ser uma imagem de
grande visibilidade um Pastor alemão enfurecido a destruir um evento dedicado à
educação e qualificação da população empreendedora. Não sou mentirosa, sempre
lhe disse que os stands teriam dois metros e meio de altura, mas olhe, como são
quatro da tarde, eu nem sequer almocei e calculo que não tenha hóstias consigo,
sugiro que vá falar com o director do estádio e resolvam o problema, como por
exemplo, colocar uns calços de 40 cm no seu altar! Meia hora depois, quando
regressei, estava mais calmo mas com uma lista de argumentos para massacrar
a minha já cansada cabeça. Exigiu espaço para a passagem da ambulância caso fosse necessário
acudir a algum necessitado possuído pelo demónio. Espaço que não tinha mas
arranjei, reorganizando a área para a montagem da tenda dos workshops. E ainda
exigiu que tapasse os stands por tgrás
porrque ficava muito feio para o lado dele!!!! Expliquei-lhe que faria o
que fosse possível, mas não prometia nada porque seria uma coisa que iria onerar
o meu orçamento, e certamente os fiéis estariam muito mais interessados no
sermão e nos cânticos do que na parte de trás dos meus stands.
Quando me perguntou qual o objectivo do meu evento, resisti
heroicamente à tentação de lhe dizer que era uma feira erótica.
A missa realizou-se e eu tive, às 14 horas, uma avalanche de cerca de doze mil pessoas, não
propriamente interessadas em empreender ou gerir fosse o que fosse, mas sim em
arranjar umas mesas e umas cadeiras para comer o farnel, que cantar dá fome e
as religiões não alimentam o estômago e sim a alma.
Foi necessária a intervenção da polícia para (im)pôr a ordem na
multidão mas os trabalhos decorreram e a feira terminou com objectivos cumpridos e com sucesso.
Este foi um dos moinhos mais pequenos. O outro, o maior, um dia hei-de contar.
Eileen Salvação Barreto