Chovia tanto, eu não tinha guarda-chuva, nem dinheiro, precisava de um táxi e o multibanco era do outro lado da avenida que se havia transformado num afluente do Tejo.
Resguardada na galeria do prédio, vi um a entrar na rua, esbracejei de aflição, ele parou mesmo ali e eu mergulhei lá para dentro em brados de indignação encharcada e aterrorizada pela reacção do motorista quando lhe dissesse que tinha de parar lá adiante para eu ir levantar notas.
Foi simpático. Parou, esperou, eu reentrei ainda mais de pés gelados e encetámos uma conversa sobre a chuva e o tempo e o frio que afinal não foi muito este Inverno.
Pois, ele na verdade não abrira nem uma vez o aquecimento central nem acendera as lareiras que são três. E como agora vive sozinho, chega a casa, janta numa cozinhita ao lado da garagem e sobe logo para o quarto que é no primeiro andar. Como tem lá televisão, passam-se semanas que não entra na sala. E se o quarto é frio que o primeiro andar é alto...
- É desabrigado, com vista para Bucelas, tá a ver a senhora?
- Ah... mas não tem familia, então, o senhor.
- Tenho uma filha e três netos, fui casado trinta anos mas a minha mulher resolveu sair de casa há dois e divorciámo-nos. Sabe a senhora que isto de ser casado muito tempo, cansa. Estávamos para ali os dois, a irritar-nos um com o outro. Foi ela que quis e eu não a demovi mas também agora se quisesse voltar não a queria porque ela chegou a viver com outro homem depois de nos separarmos. Agora está sozinha mas já não a quero de volta.
Eu só lhe via a nuca e um par de olhos no retrovisor. Entretanto parámos numa rua estreita e íngreme por bloqueio de um camião.
- Mas o senhor vai compor a sua vida. Há muitas mulheres a quererem um companheiro.
- Pois. Os meus colegas também dizem que elas há muitas mas eu não vejo nada disso. Só as encontro lá fora.
- Lá fora? Noutro país?
- Sim. Na República Dominicana. Há muitos anos que vou lá e tenho duas, duas raparigas novas, que me serviriam.
- Então ... tem de escolher uma e trazê-la...
-São os vistos, minha senhora. Muito difícil arranjar vistos.
E o trânsito fluiu, cheguei ao destino, paguei-lhe, ainda lhe recomendei que tivesse cuidado para não ter filhos com as dominicanas, ele agradeceu e arrancou...
Adoro conversas destas, intimas, rápidas, reveladoras .
Adoro pessoas.
Às vezes, adoro taxistas. E deste ficaram-me a nuca e os olhos malandros e risonhos apesar de jantar, sempre, em solidão. Ou por causa disso, talvez.
MargaridaCF