E como ele gostava de
bolachas…
Fui criada numa família católica e, dentro dessa orientação,
fiz quase tudo a que a mesma obrigava: fui
batizada, andei na catequese que achava uma seca e nunca me entusiasmou,
fiz a primeira comunhão (não fiz a solene mas isso é outra história que agora
não vem ao caso), ia à missa ao domingo com os meus pais, enfim…o habitual!
Talvez por essa falta de entusiasmo mas, especialmente, porque o meu avô
materno que acordava e adormecia de terço na mão e, literalmente, nos dava autênticas
e insuportáveis injeções de catolicismo,
eu e os meus primos fugimos da igreja a sete pés logo que pudemos. No meu caso,
teria 16 anos, um dia disse ao meu pai, arriscando uma cena, que não ia mais à
missa. Mas, contrariamente ao que eu imaginei, com calma e inteligência,
disse-me que era comigo. Confesso que havia uma missa onde continuei a ir: a missa
dos jovens, à 3.ª feira, na igreja do Carmo em Luanda, onde estavam os meus
amigos e onde as violas animavam os cânticos. Mas isto…era outra conversa.
Tudo isto para perceberem o que aí vem:
Casei com alguém para quem a igreja nada dizia e nunca demos
ao nosso filho uma educação católica. As nossas opções têm sempre as suas consequências
e temos que as assumir o que, neste caso, foi feito com um sorriso.
Convidados para um casamento, tinha o meu filho Alexandre uns
6 anos, chamaram-no para o altar junto a outras crianças. Portou-se bem, esteve
sossegado e, entretanto, chegou a hora da comunhão que decorreu com
normalidade. Entretanto, cerimónia acabada e o Alexandre veio para junto de
nós. “então, filho, gostaste de estar ali?”, perguntei-lhe eu e ele, com um ar desolado
e de quem tinha sido preterido, respondeu: “gostei mas não me deram bolachas”.
Já passaram 36 anos e não me lembro como conseguimos
responder a esta questão. Tivemos que o fazer e devemos ter usado toda a criatividade
imediata que foi possível, não mentindo
mas tentando explicar algo de muito difícil tendo em conta a situação.
Nota: que fique claro que o meu avô, Francisco de seu nome, malgrado aquela obsessão, adorava os netos
Anabela Simão
Anabela Simão