quarta-feira, 18 de maio de 2016


E como ele gostava de bolachas…

Fui criada numa família católica e, dentro dessa orientação, fiz quase tudo a que a mesma obrigava: fui  batizada, andei na catequese que achava uma seca e nunca me entusiasmou, fiz a primeira comunhão (não fiz a solene mas isso é outra história que agora não vem ao caso), ia à missa ao domingo com os meus pais, enfim…o habitual! Talvez por essa falta de entusiasmo mas, especialmente, porque o meu avô materno que acordava e adormecia de terço na mão e, literalmente, nos dava autênticas e insuportáveis injeções  de catolicismo, eu e os meus primos fugimos da igreja a sete pés logo que pudemos. No meu caso, teria 16 anos, um dia disse ao meu pai, arriscando uma cena, que não ia mais à missa. Mas, contrariamente ao que eu imaginei, com calma e inteligência, disse-me que era comigo. Confesso que havia uma missa onde continuei a ir: a missa dos jovens, à 3.ª feira, na igreja do Carmo em Luanda, onde estavam os meus amigos e onde as violas animavam os cânticos. Mas isto…era outra conversa.

Tudo isto para perceberem o que aí vem:

Casei com alguém para quem a igreja nada dizia e nunca demos ao nosso filho uma educação católica. As nossas opções têm sempre as suas consequências e temos que as assumir o que, neste caso, foi feito com um sorriso.

Convidados para um casamento, tinha o meu filho Alexandre uns 6 anos, chamaram-no para o altar junto a outras crianças. Portou-se bem, esteve sossegado e, entretanto, chegou a hora da comunhão que decorreu com normalidade. Entretanto, cerimónia acabada e o Alexandre veio para junto de nós. “então, filho, gostaste de estar ali?”, perguntei-lhe eu e ele, com um ar desolado e de quem tinha sido preterido, respondeu: “gostei mas não me deram bolachas”.

Já passaram 36 anos e não me lembro como conseguimos responder a esta questão. Tivemos que o fazer e devemos ter usado toda a criatividade imediata que foi possível, não mentindo  mas tentando explicar algo de muito difícil tendo em conta a situação.



Nota: que fique claro que o meu avô, Francisco de seu nome, malgrado aquela obsessão, adorava os netos


Anabela Simão