quarta-feira, 1 de junho de 2016

Outro Táxi...

...outra nuca, outros olhos.

Era manhã cedo. Não percebeu bem  a morada que lhe dei pelo telefone e pediu desculpa por isso. É que havia camionetas a andar.
Disse-lhe que ia a um colégio ver uma festa de um dos netos. Como netos? A senhora já tem netos?
E pegámos à conversa sobre

(ia dizer o sexo dos netos como se diz o sexo dos anjos mas calha mal e então)

sobre os géneros dos netos – cinco homens eu, três meninas ele -  e dos filhos e a idade deles e o tempo que passa tão depressa e como os consideramos tão novos ainda, e eles agora nem têm de ir à guerra, que a fez aos vinte anos em Angola.
No Cuito Cuanavale. Mesmo perto de Vila Nova da Armada onde esteve o meu marido que… não, não estava na Marinha… era Comando e andou por lá três meses.

“Pois eu era para estar quatro meses e fiquei vinte e oito. Era polícia. Numa povoação só de pretos. Chefiei um batalhão só deles. O Chefe antes de mim morreu com um tiro. Foi muito mau. Havia um  rio grande por onde passavam as lanchas dos fuzileiros. Eu via-as passar.
Depois fui para Luanda. Para o posto da polícia na Ilha. Aí é que foi… Tínhamos de tudo. Eles traziam-nos marisco do melhor, peixe fresco... Os motoristas das camionetas das cervejas entregavam-nos grades.  Aí é que foi bom. Sabe onde era a esquadra? E sabe onde eu almoçava todos os dias? No café Canas. Muito bom. Foi muito bom. Saí de lá em Dezembro de 74. Tenho saudades e não tenho”.



Durante o dia fui pensando se alguma vez vi um polícia na Ilha. Não me lembro nem de um . Acho que não há policias nos paraísos.

MargaridaCF