...outra nuca, outros
olhos.
Era manhã cedo. Não percebeu bem a morada que lhe dei pelo telefone e pediu desculpa por isso. É que havia camionetas a andar.
Disse-lhe que ia a um colégio ver
uma festa de um dos netos. Como netos? A senhora já tem netos?
E pegámos à conversa sobre
(ia dizer o
sexo dos netos como se diz o sexo dos anjos mas calha mal e então)
sobre os géneros dos netos – cinco homens eu, três meninas ele - e dos filhos e a idade deles e o tempo que passa tão depressa e como os consideramos tão novos ainda, e eles agora nem têm de ir à guerra, que a fez aos vinte anos em Angola.
No Cuito Cuanavale. Mesmo perto
de Vila Nova da Armada onde esteve o meu marido que… não, não estava na Marinha… era
Comando e andou por lá três meses.
“Pois eu era para estar quatro meses e
fiquei vinte e oito. Era polícia. Numa povoação só de pretos. Chefiei um batalhão só
deles. O Chefe antes de mim morreu com um tiro. Foi muito mau. Havia um rio grande por onde passavam as lanchas dos
fuzileiros. Eu via-as passar.
Depois fui para Luanda. Para o
posto da polícia na Ilha. Aí é que foi… Tínhamos de tudo. Eles traziam-nos
marisco do melhor, peixe fresco... Os motoristas das camionetas das cervejas
entregavam-nos grades. Aí é que foi bom.
Sabe onde era a esquadra? E sabe onde eu almoçava todos os dias? No café Canas.
Muito bom. Foi muito bom. Saí de lá em Dezembro de 74. Tenho saudades e não
tenho”.
Durante o dia fui pensando se
alguma vez vi um polícia na Ilha. Não me lembro nem de um . Acho que não há
policias nos paraísos.
MargaridaCF
MargaridaCF