Nota: gostaria de iniciar, com a devida autorização da autora deste blog, alguns pequenos escritos que fui publicando no facebook, mas que julgo fazer algum sentido constarem aqui. Por um lado, são episódios passados em Angola, terra que diz muito a muitos de nós. Por outro, desta forma não se perderão.
Sintra, 18 de Maio de 2016
O filho do Loy
Final de tarde em casa, em frente ao computador numa azáfama
de emails de preparação da minha estreia em Angola na área de feiras, ao som
cansativo e desesperante do gerador dinossáurico que repousa há 40 anos à
entrada da casa. De repente, silêncio...e a primeira sensação foi de alívio, teria
finalmente chegado a electricidade? Imediatamente um pânico em crescendo tomou
conta de mim, o gasóleo, tinha acabado o gasóleo e sem gasóleo, nem energia,
não há gerador, não há luz, não há água e não há internet...empurrei a cadeira
e, irritada, olhei pela janela ao lado da porta e tive a impressão de uma
mancha cor de laranja através do vidro fosco da entrada da casa. Chamo: Loy!...nada.
Levanto-me e saio para a rua, pergunto aos guardas do lado: viram o Loy? Sim,
está ali, vou chamar. A alegria de ver o Loy, motorista e solução de praticamente
todas as situações e contrariedades diárias, abriu-me um largo sorriso, não
obstante o ser responsável por eu ter ficado com o trabalho a meio. Achando que
não estava ninguém em casa, desligou o gerador.
A conversa que se seguiu apagou a irritação. Então dizia o Loy:- Quando a minha filha ou filho nascer, vai ser tua chará.
- Chará? Porque dizes isso?
- Vai ter o mesmo nome, vai se chamar Eileen.
- Então e se for um rapaz?
- Também! Traz sorte.
Mais uma vez, tive que
controlar as emoções, que em Angola são muitas e chegam com muita força. Foi a
primeira vez que me elogiaram o nome por trazer sorte. Deus queira que seja
verdade e que a criança que nascerá para o mês que vem tenha mesmo muita sorte
e que seja feliz!!!!
......Infelizmente o petiz, que se chamava Lino, não teve
sorte. Faleceu ao fim de seis meses, vítima de malária…