quarta-feira, 11 de maio de 2016

Coisas da idade...

Fui ao médico dos olhos. Tinha-me receitado umas dioptrias excessivas que me faziam dores de cabeça e tornavam a leitura uma tortura.
Cheguei cedo. Puxei um cesto de papeis alto e sólido, estiquei as pernas e  lá pus os pés em posição de descanso vascular.
Ainda li três ou quatro páginas do "Nações e Nacionalismos" de Gellner mas os óculos velhos dão-me sono. Mudei para o suplemento da Visão. Saltei os habituais restaurantes e outras noticias "culturais"  e acomodei-me para as palavras cruzadas que me levam sempre a uma tia, praticante diária desse desporto. Morreu de cabeça fresca e sem ponta de demência.
Foram chegando os companheiros de espera. Restava o lugar à frente do meu, quase à distância das minhas pernas esticadas. Um senhor sentou-se em viés à conta do cesto,  o que me obrigou a chegá-lo todo para o lado. Reparei-lhe nos sapatos, mocassins, iguais aos dos "meninos do meu tempo". Ficou devidamente catalogado.
Mas também eu de viés, rapidamente me cansei da posição. Endireitei-me. E imediatamente ele apanhou o cesto e esticou as dele, pedindo-me licença como se aquilo fosse meu e justificando-se com um "sabe a idade e as pernas que doem". Queixei-me de lá estar há tanto tempo, chegámos à conclusão que iamos ao mesmo clínico, entusiasmei-me com a perspectiva de ter alguém com quem conversar e vai que desata a descrever-me o motivo da sua  presença, e tal, que há uns dias sinto uma impressão aqui, estas coisas da idade...
Felizmente o plim do meu número de senha saltou no placard e eu saltei feliz por poder escapar ilesa a um diálogo digno de idosos num centro de saúde.

MargaridaCF