Sempre tive
grande dificuldade em entender as pessoas que, nas salas de espera do centro de
saúde/consultórios médicos, nas paragens de autocarros, nas bichas para
qualquer serviço público, etc., sentem uma necessidade incontrolável de contar
a sua vida ou de meter conversa com quem está ao seu lado. Na tentativa – a
maior parte das vezes vã - de suster aquela catadupa de informação, não costumo
responder, limitando-me a um ou outro aceno de cabeça, a um lacónico “pois…” ou
a um sorriso de circunstância.
Quando,
anteontem, fui à farmácia deparei-me com uma fila que chegava à porta. Enquanto
esperava pacientemente pela minha vez, chegou uma senhora, de idade indefinida,
que se colocou ao meu lado e começou a falar sozinha mas em voz alta:
– Mas o que é que eu vim fazer aqui? O que é
que eu vinha comprar? Concor não é, porque ainda tenho… o do colesterol também
ainda tenho… o da circulação também não é. Mas afinal o que é que eu vinha
comprar? - e ao mesmo tempo olhava para mim como se estivesse à espera que
eu lhe respondesse.
Sem ter
tempo de segurar as palavras na boca, perguntei-lhe:
- Não seria um medicamento para a memória?
A senhora,
com um ar bem divertido, olhou para mim, sorriu e disse-me:
- Parece-me que estou a precisar… mas não é
esse, porque esse ainda não tomo.
E foi o
pretexto para iniciar uma grande conversa que eu, pacientemente, fui ouvindo…
Fiquei a
saber a vida toda da “amiga Maria Fernanda” com quem ela naquela manhã estivera
cerca de hora e meia ao telefone… que a
Maria Fernanda está viúva, que vivia num lar das Forças Armadas, que deu uma
queda, que teve de ser internada, que vai ter alta, que já não tem lugar no
lar, que não sabe para onde há-de ir porque o filho foi viver com a família
para a casa dela, que a Maria Fernanda tem setenta e tal anos e é mais velha do
que ela dez, que a amiga já está um pouco confusa e que a põe a ela também
confusa… a tal ponto que hoje quando
estava a falar com ela ao telefone, de repente começa a chorar e eu muito aflita:
– Ó Maria Fernanda, o que é tem?
E ela:
- Deixei cair o telefone e agora não o
encontro.
E eu só lhe dizia: - Não se aflija, tenha calma, procure bem porque se
o tinha na mão, ele há-de estar aí caído no chão!
E, olhando
para mim, acrescenta com uma sonora gargalhada:
- Veja lá como estava a minha cabeça! Só
depois de ter dito isto é que percebi que, se a Maria Fernanda estava a falar
comigo ao telefone, o telefone não podia ter caído tinha, que estar na mão dela!
E dizendo
isto, sempre a olhar para mim, recomeçou o monólogo inicial:
- Mas, afinal o que é que eu vinha comprar?
Mas porque é que eu vim à farmácia? Bem, como não me lembro, vou-me embora!
Ainda
atordoada por aquela vertiginosa verborreia, olhei à sua procura, mas já tinha
desaparecido.
Luísa Mexia