Gosto de Gente
As relações humanas, sejam elas de que âmbito forem, são e
serão sempre o móbil principal da minha vida. Sem este intercâmbio entre gentes
nada faz sentido. Gosto de conhecer gente nova, de perto ou de longe, de raças
diferentes e diferentes culturas, que me surpreendam e me ensinem. Felizmente,
por caráter e porque tenho a sorte de trabalhar num sítio que o permite, esses
encontros e novos conhecimentos são frequentes.
Na semana passada estive no Porto em trabalho, numa reunião
que juntou a lusofonia. África esteve presente através de Angola, Moçambique,
Cabo Verde, S. Tomé e Guiné, esteve Macau e, obviamente, esteve Portugal mais
marcado pelo norte e pelo centro. Desta vez, faltou o Brasil por razões por
demais conhecidas. Claro que estes contactos têm surpresas (ou não…) boas e más
mas as primeiras, felizmente, vencem por larga maioria. Há gente que passa
despercebida, há os bem dispostos e afáveis que nos deixam marcas, que não mais
esquecemos e de quem chegamos mesmo a ficar amigos, e há os distantes, que se pensam “superiores” – felizmente muito poucos – que, para mal dos
próprios, ou não deixam rasto ou, se o deixam, é cinzentão, feio, desagradável.
No meio de todos destacaram-se dois guineenses que me
marcarão para a vida: gente licenciada, com elevados cargos nas regiões de onde
são oriundos, com filhos a estudar em Coimbra, mas de uma simplicidade, de uma
graça e de uma ternura quase infantil…digo quase infantil porque a ternura nos
nossos países ditos evoluídos, vinda de homens adultos, é para a maioria
sinal de fraqueza e, mais ainda, se essa ternura for transmitida a estranhos. Estes
dois homens de quem já tinha ficado com muito boa impressão através dos
contactos telefónicos, vindos de um país tão pobre, com uma situação política sistematicamente
tão complicada, foram um bom exemplo de que a civilização e, especialmente, a
riqueza, não tornam o Homem melhor.
O mais alto destes dois homens, com cerca de 1,90m de altura,
muito negro, com um chapéu bordeaux, de aba pequena, que mais parecia a
extensão do seu próprio corpo já que raramente o tirava, encantou-me quando, no
meio da rua e qual miúdo traquina, nos disse alegremente que fazia anos e
confirmou mostrando o passaporte. Cantámos os parabéns numa rua estreita do
Porto, e voltámos a fazê-lo ao almoço enquanto os seus olhos brilhavam de
satisfação. Voltou a encantar-me quando disse que na sua terra não existem
madrastas nem padrastos. Existem somente PAIS e criança órfã ou
abandonada que entre numa qualquer família, sem exceção, passa a ser filho e a ser tratado como tal. Não entende, nem aceita, que na Europa isso nem sempre seja uma realidade. É
impressão minha ou a boa índole deste homem, com esta afirmação, ficou muito
transparente? Posso ter-me enganado mas acredito ter conhecido em muito pouco
tempo um homem bom!
Antes da chegada a Lisboa, este
homem repetiu vezes sem fim a sua tristeza por nos deixar, e despediu-se de nós quase de lágrimas nos olhos. O “tio”, como ele carinhosamente chamava ao conterrâneo que tinha metade do seu tamanho e que, consequentemente, o chamava de
“sobrinho”, era de uma ternura diferente, mais brincalhona mas muito sentida
naquele abraço apertado que nos deu quando se despediu. Ambos com um grande sentido
de humor, deram-nos momentos de muita risota.
Bem hajam estes dois homens que deram uma enorme lição de
humildade...a quem a quis aproveitar!
Anabela Simão