Neste meu verão periodicamente nebuloso tenho-me dedicado bastante às tarefas domésticas não só para matar o tempo mas também por falta de pachorra para arranjar alguém que se enfie cá em casa e a quem tenha de dar indicações e aturar conversas. Acho que agora começo a compreender a resistência a "meter estranhos em casa" que ao longo da minha vida fui vendo por parte de pessoas mais velhas.
Já o sou.
Pessoa mais velha.
Há dias até comentei, rindo, que para efeitos de "domesticidade" me imagino no papel das criadas que tive em casa dos meus pais. Duas irmãs, a Isilda e a Lurdes, beirãs, coradas, gorduchinhas e amantes dos magalas que cirandavam na cercania da rua Damião de Góis, vindos lá de cima dos quartéis. Ambas saíram de nossa casa para casarem. Aliás, uma casou e permaneceu connosco depois de casada, talvez porque o marido se ausentava em missão. E nem sei se estou a imaginar mas tenho uma idéia de ver alguns meninos púberes e imberbes, curiosos, espreitando desde uma pequena janela para dentro do quarto, na cave, onde ela teria os seus devaneios matrimoniais. Acho. Não sei que eu nunca espreitei. Na verdade, se estou a imaginar, haverá por aqui no facebook quem me possa confirmar....
Quando passo a ferro - e sim!! já dobro lençóis de elástico como uma facilidade que me orgulha!! - vejo a Lurdes, à frente de quem me sentava, na varanda onde ela engomava, ouvindo-a contar histórias da sua infância, em Seia, acho. Eram os lobos e as noites de lua, a neve e o rancho de irmãos, e os rebanhos, e os bruxedos.
Em 65, e a caminho de Mirandela, levámo-la - os pais, nós que ainda eramos cinco e ela...- no Mercedes, a passar uns dias com a família. Lá por perto da Serra da Estrela. Lembro-me de uma aldeia toda em pedra escura, de caminhos estreitos e mulheres que pareciam freiras.
Nós pernoitámos no Caramulo. No Hotel que me pareceu de filme.
Isto tudo veio à mão porque depois de ter deixado uma sopa de feijão ao lume, fui pôr roupa a secar- ao tal estilo, não de Lurdes, mas de "água fria na ribeira", alguidar à "ianca" e andar leve - e fiquei orgulhosa porque finalmente consigo organizar a corda bem à maneira de mulher portuguesa: camisolas de manga comprida, camisolas de meia manga, cuecas, meias aos pares e tudo tudo alinhado . Ah! E last but not the least: até agora só há duas meias desemparelhadas no cesto, em espera. Pouco para quem sistematicamente se espantava pelo mistério das peúgas desaparecidas...
MargaridaCF
MargaridaCF