segunda-feira, 6 de junho de 2016


Gosto de Gente

As relações humanas, sejam elas de que âmbito forem, são e serão sempre o móbil principal da minha vida. Sem este intercâmbio entre gentes nada faz sentido. Gosto de conhecer gente nova, de perto ou de longe, de raças diferentes e diferentes culturas, que me surpreendam e me ensinem. Felizmente, por caráter e porque tenho a sorte de trabalhar num sítio que o permite, esses encontros e novos conhecimentos são frequentes.

Na semana passada estive no Porto em trabalho, numa reunião que juntou a lusofonia. África esteve presente através de Angola, Moçambique, Cabo Verde, S. Tomé e Guiné, esteve Macau e, obviamente, esteve Portugal mais marcado pelo norte e pelo centro. Desta vez, faltou o Brasil por razões por demais conhecidas. Claro que estes contactos têm surpresas (ou não…) boas e más mas as primeiras, felizmente, vencem por larga maioria. Há gente que passa despercebida, há os bem dispostos e afáveis que nos deixam marcas, que não mais esquecemos e de quem chegamos mesmo a ficar amigos, e há os distantes, que se pensam “superiores” – felizmente muito poucos – que, para mal dos próprios, ou não deixam rasto ou, se o deixam, é cinzentão, feio, desagradável.

No meio de todos destacaram-se dois guineenses que me marcarão para a vida: gente licenciada, com elevados cargos nas regiões de onde são oriundos, com filhos a estudar em Coimbra, mas de uma simplicidade, de uma graça e de uma ternura quase infantil…digo quase infantil porque a ternura nos nossos países ditos evoluídos, vinda de homens adultos, é para a maioria sinal de fraqueza e, mais ainda, se essa ternura for transmitida a estranhos. Estes dois homens de quem já tinha ficado com muito boa impressão através dos contactos telefónicos, vindos de um país tão pobre, com uma situação política sistematicamente tão complicada, foram um bom exemplo de que a civilização e, especialmente, a riqueza, não tornam o Homem melhor.

O mais alto destes dois homens, com cerca de 1,90m de altura, muito negro, com um chapéu bordeaux, de aba pequena, que mais parecia a extensão do seu próprio corpo já que raramente o tirava, encantou-me quando, no meio da rua e qual miúdo traquina, nos disse alegremente que fazia anos e confirmou mostrando o passaporte. Cantámos os parabéns numa rua estreita do Porto, e voltámos a fazê-lo ao almoço enquanto os seus olhos brilhavam de satisfação. Voltou a encantar-me quando disse que na sua terra não existem madrastas nem padrastos. Existem somente PAIS e criança órfã ou abandonada que entre numa qualquer família, sem exceção,  passa a ser filho e a ser tratado como tal. Não entende, nem aceita, que na Europa isso nem sempre seja uma realidade. É impressão minha ou a boa índole deste homem, com esta afirmação, ficou muito transparente? Posso ter-me enganado mas acredito ter conhecido em muito pouco tempo um homem bom!

Antes da chegada a Lisboa, este homem repetiu vezes sem fim a sua tristeza por nos deixar, e despediu-se de nós quase de lágrimas nos olhos. O “tio”, como ele carinhosamente chamava ao conterrâneo que tinha metade do seu tamanho e que, consequentemente, o chamava de “sobrinho”, era de uma ternura diferente, mais brincalhona mas muito sentida naquele abraço apertado que nos deu quando se despediu. Ambos com um grande sentido de humor, deram-nos momentos de muita risota.


Bem hajam estes dois homens que deram uma enorme lição de humildade...a quem a quis aproveitar!

Anabela Simão