sábado, 14 de maio de 2016

Primavera em Sintra


Sintra, 14 de Maio de 2016

Gosto da Primavera. Em especial gosto de ver desabrochar a Primavera em Sintra porque é diferente. É verde. Verde de todas as cores. Claro, escuro, brilhante, límpido, opaco e, muitas vezes, verde transparente como o ar que ali se respira. Verde salpicado aqui e ali pelo amarelo de flores insultadas, porque chamadas de selvagens e azedas, sobreviventes à invasão da hera dominante,  abençoadas pelos raios de sol que espreitam através de aberturas esporádicas da mata de eucaliptos dançando  ao som da brisa e da água cantante das pequenas nascentes espalhadas pela serra. E o cheiro…o cheiro inebriante a terra e a vida. Um passeio por Sintra é uma viagem que não toca apenas os cinco sentidos, é uma verdadeira sessão de terapia da alma.

O meu jardim é um pouco mais colorido. O Sr. José Carlos, jardineiro, tem aquilo que se chama a “mão verde” - um dom que infelizmente não tenho - e conseguiu o impossível: fazer crescer flores nos canteiros, contra a vontade da ventania predominante nesta zona de Sintra. Até há um mês, todos os dias passava um olhar expectante a cada canto do jardim, até finalmente as ver despontar. Neste momento, crescem viçosa e vigorosamente, prometendo um verão mais bonito – se conseguirem resistir às regas de água com cloro que a minha neta Benedita lhes impõe, com a intenção óbvia de lhes dar de comer.

Já saída da primavera da vida há uns anos e  praticamente entrada no outono, sento-me ao fim da tarde na varanda da minha casa, mergulhada em êxtase a ouvir a passarada a despedir-se do dia, o coachar das rãs a celebrar a noite, o som dos bambús e da folhagem das árvores em conversa enamorada, com os olhos fixos no pôr-do-sol como se fosse o último, sentindo-me privilegiada por ser parte desta natureza em tons de verde.

Coisas de avó.

Eileen Salvação Barreto