É um lugar-comum dizer-se que podemos interagir serenamente,
sem hesitações nem barreiras, com os amigos antigos, mesmo que não os vejamos
há anos.
Aqueles de infância e/ou adolescência. Os que correram
connosco na praia e ganhavam – ou perdiam! - concursos de mergulhos… e - de
vingança! - nos davam amonas aterradoras... Ou que apareciam ao entardecer morno da nossa
doce áfrica, e connosco se juntavam, em bando heterogéneo, nos portões de quem
calhasse. De preferência com um gira-discos… Os que conheceram os nossos
primeiros amores ou nos pediam conselhos sobre namorada(o)s mais caprichosa(o)s. Os que adivinharam os nossos dramas e epifanias, ou dúvidas
adjacentes, e nos ajudavam a desembrulhar emoções mais frágeis ou a pôr
no sítio, como novos, os nossos corações despedaçados. (acho mesmo que a
esperança, nem sempre consciente, de que a seguir a um muito mau momento vem uma
fase boa, é resultado destes momentos primários.).
Quando conseguimos
saltar por cima de situações difíceis, temos sempre a ajuda dos amigos antigos.
Mesmo sem eles presentes. Os amigos antigos ficam-nos para sempre nas alegrias e nas aflições, por vezes
ainda mais que as mães e os irmãos ou os maridos/mulheres e filhos. Estão cá connosco a apoiar-nos ou a rirem-se desbragadamente de piadas patetas, mesmo que não
estejam.
Estes meus amigos (e só não acrescento amigas para não parecer socialista a discursar na Assembleia …) podem estar casados, ter filhos e netos. Podem ter uma vida longe da minha na qual eu não estou inserida. Podem ter estado trinta anos sem que soubesse deles diariamente. Mas considero-os, muitas vezes, mais meus do que de qualquer membro das suas famílias. Há “partes” deles que me pertencem. Há, acima de qualquer pessoa que tenha aparecido nas suas vidas depois de mim, depois de todos os que foram seus amigos primários, uma prioridade específica e não partilhável. Como que um direito exclusivo. Não posso, eu sei, exercê-lo. Também, na verdade, não queria. Mas ele existe que eu sei.
MargaridaCF
Estes meus amigos (e só não acrescento amigas para não parecer socialista a discursar na Assembleia …) podem estar casados, ter filhos e netos. Podem ter uma vida longe da minha na qual eu não estou inserida. Podem ter estado trinta anos sem que soubesse deles diariamente. Mas considero-os, muitas vezes, mais meus do que de qualquer membro das suas famílias. Há “partes” deles que me pertencem. Há, acima de qualquer pessoa que tenha aparecido nas suas vidas depois de mim, depois de todos os que foram seus amigos primários, uma prioridade específica e não partilhável. Como que um direito exclusivo. Não posso, eu sei, exercê-lo. Também, na verdade, não queria. Mas ele existe que eu sei.
MargaridaCF