Acho que já referi isto....Quando viemos para este bairro a minha filha era menina jovenzinha, linda, simpática, de sorriso deslumbrantemente constante. E virou famosa. Pelos atributos de personalidade mas também porque era assídua frequentadora da "rua das lojas"- das esplanadas, da padaria, da mercearia, da farmácia...-. Dei-me conta da sua aura quando um dia me vi sem dinheiro para pagar legumes e a dona da frutaria escreveu, no livro de contas : "mãe da Mariana a dever 'xxx' escudos".
Ao tempo vivia-se, ainda, o rescaldo da telenovela "Sassaricando" na qual uma Cláudia Raia exorbitante -tanto que parecia saltar da televisão para o nosso colo - era filha de uma salerosa imigrante espanhola. A Madrecita .... Talvez por isso, o Filipe, um dos funcionários da pastelaria onde muitas vezes íamos, as duas, tomar café, me colou essa alcunha. Que ficou para sempre. Hoje mesmo, a meio da tarde, quando por lá passei e me cruzei com um empregado - dos antigos - ouvi: "Olá Madrecita! Como está?".
Um dia, de passeio com a minha avó, a quem regularmente ia buscar para tomar ares fora do Lar onde tinha escolhido acabar os seus dias, quis dar-lhe lanche. Como estava bem velhinha deixei-a no carro, entrei na pastelaria, pedi um queque e um iogurte. Quando cheguei perto dela reparei que não tinha colher. Voltei. Pedi ao Filipe que me emprestasse uma, de chá. Com um piscar de olhos cúmplice passou-ma para a mão. De metal, com um cabo de plástico amarelo.
Aquele lanche demorou muito tempo. O iogurte foi dado a pouco e pouco, o queque partido aos bocadinhos. Quase como a um bebé. Era uma tarde de primavera tépida e luminosa. No regresso pediu-me que abrandasse ao chegar ao Alto de Caxias para olhar bem o estuário azul e brilhante do Tejo. Talvez a visão a levasse ao mar do seu Funchal. Não terá sido a última vez que passeámos juntas mas foi uma das que recordo. Talvez pela colher.
Aquele lanche demorou muito tempo. O iogurte foi dado a pouco e pouco, o queque partido aos bocadinhos. Quase como a um bebé. Era uma tarde de primavera tépida e luminosa. No regresso pediu-me que abrandasse ao chegar ao Alto de Caxias para olhar bem o estuário azul e brilhante do Tejo. Talvez a visão a levasse ao mar do seu Funchal. Não terá sido a última vez que passeámos juntas mas foi uma das que recordo. Talvez pela colher.
É que a trouxe para casa e a meti na máquina. A fiel Paula arrumou-a na gaveta dos talheres num escaninho onde vão parar utensílios desemparelhados e só muito tempo depois, já a Avó tinha morrido e o Filipe abalado para um outro café, me veio parar à mão, talvez para dar iogurte a um novo neto. Devia tê-la devolvido à procedência. Mas o facto de ter voltado a sentir-me neta quando lhe peguei fez com que decidisse mantê-la. É uma espécie de roubo, eu sei. Que seja. A Avó volta quando a encontro com aquele cabo amarelo.
Foi o que aconteceu hoje: calhou-me pegá-la quando quis medir maisena para engrossar um molho.
Voltei a ser neta....