quarta-feira, 7 de dezembro de 2016

A Colher do Cabo Amarelo

Acho que já referi isto....Quando viemos para este bairro a minha filha era menina jovenzinha, linda, simpática, de sorriso deslumbrantemente constante. E virou famosa. Pelos atributos de personalidade mas também porque era assídua frequentadora da "rua das lojas"- das esplanadas, da padaria, da mercearia, da farmácia...-. Dei-me conta da sua aura quando um dia me vi sem dinheiro para pagar legumes e a dona da frutaria escreveu, no livro de contas : "mãe da Mariana a dever 'xxx' escudos". 
Ao tempo vivia-se, ainda, o rescaldo da telenovela "Sassaricando" na qual uma Cláudia Raia exorbitante -tanto que parecia saltar da televisão para o nosso colo - era  filha de uma  salerosa imigrante espanhola. A Madrecita .... Talvez por isso, o Filipe, um dos funcionários da pastelaria onde muitas vezes íamos, as duas, tomar café, me colou essa alcunha. Que ficou para sempre. Hoje mesmo, a meio da tarde,  quando por lá passei e me cruzei com um empregado - dos antigos - ouvi:  "Olá Madrecita! Como está?". 

Um dia, de passeio com a minha avó, a quem regularmente ia buscar para tomar ares fora do Lar onde tinha escolhido acabar os seus dias, quis dar-lhe lanche. Como estava bem velhinha deixei-a no carro, entrei na pastelaria, pedi um queque e um iogurte. Quando cheguei perto dela reparei que não tinha colher. Voltei. Pedi ao Filipe que me emprestasse uma,  de chá. Com um piscar de olhos cúmplice passou-ma para a mão. De metal, com um cabo de plástico amarelo.
Aquele lanche demorou muito tempo. O iogurte foi dado a pouco e pouco, o queque partido aos bocadinhos.  Quase como a um bebé. Era uma tarde de primavera tépida e luminosa. No regresso pediu-me que abrandasse ao chegar ao Alto de Caxias para olhar bem o estuário azul e brilhante do Tejo. Talvez a visão a levasse ao mar do seu Funchal. Não terá sido a última vez que passeámos juntas mas foi uma das que recordo. Talvez pela colher.

É que a trouxe  para casa e a meti na máquina. A fiel Paula arrumou-a  na gaveta dos talheres num escaninho onde vão parar utensílios desemparelhados e só muito tempo depois, já a Avó tinha morrido e o Filipe abalado para um outro café, me veio parar à mão, talvez para dar iogurte a um novo neto.  Devia tê-la devolvido à procedência. Mas  o facto de ter voltado a sentir-me neta quando lhe peguei fez com que decidisse mantê-la. É uma espécie de roubo, eu sei. Que seja. A Avó volta quando a encontro com aquele cabo amarelo. 
Foi o que aconteceu hoje:  calhou-me pegá-la quando quis medir maisena para engrossar um molho. 
Voltei a ser neta....


sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Ineficiência Geracional

Estive dois meses, ou mais,  sem usar este computador velho, grande e solene que eu adoro. Gosto mesmo. Porque ronrona e me faz companhia. Ou talvez porque está colocado a um canto sossegado da casa. Ou porque perto dele se encontra todo o material necessário para definir um escritório meu, tão meu que todos pedem licença para aqui se sentarem.
Quando retomei a sua utilização, houve um problema com o som. Um pequeno altifalante comprado antes do verão e que acompanhou o computador ao longo do seu sono estival, revelara-se mudo. Fiz todas as tentativas e utilizei todas as entradas, ali na traseira da torre, para o pôr a funcionar. Nada. Incapaz de perceber porquê mas sem muito insistir na sua resolução pois pouco tenho utilizado esta máquina para ouvir música. Por falta de tempo. E preguiça. Tem sido só para trabalhar. E no âmbito do trabalho incluo a correspondência diária por mail ou facebook onde raramente entro através do iPad que se arma em corrector espertinho, metediço e asneirento. 

Hoje o neto grande perguntou se podia . Eu disse que sim, claro. 

"Nada de visitar sítios esquisitos ou virulentos". 
"Tá bem, avó. Obrigado".

Percebi, num intervalo em que ele foi recuperar energias à cozinha e eu quis espreitar o windguru, que o mini altifalante se encontrava alumiado. E sonoro! 

"Então?? O altifalante não funcionava... Como é que se arranjou?"
"Liguei-o bem, avó..."
"Ah!"