terça-feira, 17 de maio de 2016

Bom dia e Toca a andar...


Avozes é um blogue criado para avós. Por circunstâncias da vida, não sou, nem nunca serei avó a não a ser dos netos das minhas amigas. E tenho tantos netos lindos…

Mas a Guida, querida como sempre, convidou-me a participar. Não porque escreva assim tão bem, mas porque me apetece e porque não recuso um convite da Guida, aqui vai um pequeno apontamento sobre alguém que, apesar de ter dois netos lindos, nem por isso se tornou doce e feliz como as avós que me rodeiam. Não sabe o que perde.


Bom dia e toca a andar…

A receção da instituição onde vou com frequência há já algum tempo tem, sentada a uma vulgar secretária, uma senhora de cabelos cinzentos e aspeto simples, que atende telefones e recebe quem ali entra. A primeira vez que passei aquela porta, e porque a boa educação assim o manda, disse “bom dia” e ao que ia, e tudo pareceu normal. Como a frequência das minhas visitas começou a ser mais assídua, ao “bom dia” passei a acrescentar “como está?”. Aí, a coisa complicou-se: as respostas passaram a ser, invariavelmente, queixas acompanhadas de expressão facial sofrida: “dói-me muito a cabeça”, “ai, os meus diabetes estão cada vez piores”, “estou farta da chuva”, “não aguento o frio”, “está tanto calor que não se pode”, “o meu marido, coitadinho…”, “as minhas férias…passaram-se” e passada fico eu com o rol interminável de desgraças que não o são. Ali, à minha frente, a negatividade em pessoa, algo incompatível com a minha boa saúde mental (sim, que isto pode ser pegadiço).

Perguntei a quem ali está há mais tempo o porquê de tanta lamúria…”sabes, o marido batia-lhe muito”. “batia-lhe??? Já não lhe bate?” “não, morreu há muitos anos. Agora vive com um senhor muito amigo dela” “Ahhh…’tou a perceber”. Mentira, não estou a perceber e muito menos tenho pachorra. Se um dia a D. X precisar de mim, estarei lá para ajudar, mas não vou deixar que me sugue energia com lamúrias sem conteúdo, só para chamar a atenção que não tem porque a afugenta e que, a continuar assim, dificilmente terá. É a chamada “pescadinha de rabo na boca”.


Agora, entro aquela porta e já com um pé no degrau que me leva ao andar de cima, arriscando a que me chamem de malvada sem coração, digo um “bom dia” rápido e sigo o meu caminho sem sequer virar a cabeça. Livra!!!


Anabela Simão