Avozes é um blogue criado para
avós. Por circunstâncias da vida, não sou, nem nunca serei avó a não a ser dos
netos das minhas amigas. E tenho tantos netos lindos…
Mas a Guida, querida como sempre, convidou-me a participar. Não porque
escreva assim tão bem, mas porque me apetece e porque não recuso um convite da Guida, aqui vai um
pequeno apontamento sobre alguém que, apesar de ter dois netos lindos, nem por
isso se tornou doce e feliz como as avós que me rodeiam. Não sabe o que perde.
Bom dia e toca a andar…
A receção da instituição onde vou com frequência há já algum tempo tem,
sentada a uma vulgar secretária, uma senhora de cabelos cinzentos e aspeto
simples, que atende telefones e recebe quem ali entra. A primeira vez que
passei aquela porta, e porque a boa educação assim o manda, disse “bom dia” e
ao que ia, e tudo pareceu normal. Como a frequência das minhas visitas começou
a ser mais assídua, ao “bom dia” passei a acrescentar “como está?”. Aí, a coisa
complicou-se: as respostas passaram a ser, invariavelmente, queixas acompanhadas
de expressão facial sofrida: “dói-me muito a cabeça”, “ai, os meus diabetes estão
cada vez piores”, “estou farta da chuva”, “não aguento o frio”, “está tanto
calor que não se pode”, “o meu marido, coitadinho…”, “as minhas
férias…passaram-se” e passada fico eu com o rol interminável de desgraças que
não o são. Ali, à minha frente, a negatividade em pessoa, algo incompatível com
a minha boa saúde mental (sim, que isto pode ser pegadiço).
Perguntei a quem ali está há mais tempo o porquê de tanta lamúria…”sabes,
o marido batia-lhe muito”. “batia-lhe??? Já não lhe bate?” “não, morreu há
muitos anos. Agora vive com um senhor muito amigo dela” “Ahhh…’tou a perceber”.
Mentira, não estou a perceber e muito menos tenho pachorra. Se um dia a D. X
precisar de mim, estarei lá para ajudar, mas não vou deixar que me sugue energia
com lamúrias sem conteúdo, só para chamar a atenção que não tem porque a
afugenta e que, a continuar assim, dificilmente terá. É a chamada “pescadinha
de rabo na boca”.
Agora, entro aquela porta e já com um pé no degrau que me leva ao andar
de cima, arriscando a que me chamem de malvada sem coração, digo um “bom dia”
rápido e sigo o meu caminho sem sequer virar a cabeça. Livra!!!
Anabela Simão
Anabela Simão